
Woody Allen conseguiu em sua carreira algo que muitos tentam e não conseguem, atingir o nível de gênio através da comédia. A arte do fazer rir sempre foi menosprezada, por exatamente conseguir o seu objetivo: relaxar e entreter o público. A natureza do riso é muito mais complexa do que a do chorar. Músicas e atuações precisas conseguem com pouco esforço fazer alguém chorar, no entanto para rir é imprescindível ser engraçado, " se dobrar é engraçado, se quebrar não é" como diria Lester (Alan Alda) em "Crimes E Pecados". Allen provavelmente seja a única figura no ramo cinematográfico que fez rir com o status quo de genialidade.
Allen se destaca também por ter em suas filmografias outras peculiaridades. A primeira e mais obvia é o seu ritmo de trabalho. Com 40 anos de trabalho o diretor judeu tem em seu currículo nada menos que 39 filmes, ou seja, quase um filme por ano. Não há outro diretor que tenha conseguido tal façanha com tanta destreza. Allen também roteirizou todas suas obras, sempre trabalhando em seu próprio material Allen consegue manter a sua integridade artística e sua personalidade fiel.
Outra façanha conseguida por Allen é a diversidade de temas e gêneros encontrada ao longo de sua carreira. Não só se limitando à comédia Allen fez dramas (A Outra), homenagens a Bergman (Interiores), brincou com a diegese (A Rosa Púrpura do Cairo), fez suspenses (Match Point) e brincou com os limites dos filmes (Zelig).
Os últimos 10 anos não foram bons para Allen, realizando seus filmes mais fracos. Consumido pela sede da mídia pelo seu relacionamento com Soon-Yi Previn, não víamos desde Poucas e Boas (99) em seus filmes o brilho característico ao cineasta. Após quase uma década de fracassos Woody faz um pequeno, porém um importante filme: Melinda e Melinda. Nesse filme ele faz uma síntese de toda sua obra, a fina linha entre o trágico e o engraçado e as sutilezas empíricas de cada um.
Filmografia em DVD (Disponíveis na grande capital de Salvador):
Tudo Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo* Mas Tinha Medo De Perguntar:
Primeiro sucesso de Allen o filme é uma reunião de curtas aonde o tema central é o sexo. Allen faz rir com curtas inusitados (como a história dos espermas) e já começa a brincar com os paradigmas cinematográficos. No esquete do qual é sua perversão, o diretor brinca com o dialogo entre o cinema e a TV.
O Dorminhoco:
Até em sua comédia mais boba, vemos que não se trata simplesmente de um diretor e sim de Woody Allen. Allen brinca com referências a filmes de ficção cientifica sendo a mais curiosa a de 2001: Uma Odisséia No Espaço aonde ao fazer um transplante Woody é supervisionado por um robô que claramente é uma parodia ao robô Hal 9000. O filme se baseia muito nas piadas em estilo gag, influência dos irmãos Marx.
A Última Noite De Boris Grunchesko:
A influência de Bergman é clara nos filmes de Allen. Nesta obra que conta à história de Boris Brunchesko um russo que se vê em meio à guerra contra Napoleão. As citações são claras. Dentre elas as melhores a se ressaltar são os diálogos existencialistas de Boris com Sonja (Diane Keaton) e a figura da morte, uma clara homenagem ao filme "O Sétimo Selo". As piadas físicas ainda existem, mas aqui se encontram bem moderadas e intercaladas com sarcasmo e piadas de ótimo gosto.
Noivo Neurótico, Noiva Nervosa:
Allen ganha o mundo e o Oscar com a história de amor entre Alvy (o mesmo) e Annie (Diane Keaton). Claramente não há como dissecar esse filme em poucas linhas, mas nessa obra vemos tudo que há de melhor em um filme do diretor. Além de situações engraçadas o filme dialoga com os limites da realidade e diegese (a verdade do filme). Em determinada cena o casal está em uma fila de cinema e há alguém conversando atrás deles. Alvy impaciente começa a reclamar do fato com Annie e logo depois se encontra dialogando com o espectador, quebrando a barreira dogmática cinematográfica. Há também um interessante recurso da animação. As piadas físicas somem para nunca mais aparecer.
Interiores:
A opção estética de Allen nesse filme colide de frente com tudo que ele já havia realizado. Até então era decorrente e irrefutável se ver humor nas obras do diretor. O tom sério e sóbrio do filme dialoga melhor com os filmes europeus e "Bergmanianos". Planos longos e parados dão uma seriedade incrível a historia de três irmãs que cuidam da mãe durante o seu divorcio. Um filme difícil, mas de apreciação e gosto requintados.
Manhattan:
Todo homem precisa de um lar e no caso de Woody esse lar é Nova York. Como pano de fundo a uma história de amor, Nova York se apresenta como um personagem rico e cheio de vida. As relações amorosas do filme partem de um órgão sincero e puro, dando a todas motivações necessárias realistas. A fotografia em preto e branco dá ao filme uma classe e uma sofisticação visual curiosa (principalmente pela importância das cores em uma cidade tão confusa e brilhante como a grande maça).
Sonhos Eróticos De Uma Noite De Verão:
Comédia com toques de Shakespeare e Bergaman, Sonhos Eróticos é uma leve obra sobre amor, sexualidade, erotismo e paixão. Três casais misturam-se em uma rede de relações que faz elos com "Sonho de uma noite de verão". A fotografia e o cenário bucólico servem de colírio a essa obra de prazeres menores.
Zelig:
Um dos filmes mais curiosos, inteligentes e perspicazes de Woody Allen. O primeiro letreiro deixa claro que iremos assistir a um documentário sobre a vida de Leonard Zelig. Obviamente que se trata de uma ficção, mas só o levantamento do dialogo entre essas duas mídias (que Allen repetirá futuramente) é curiosa. O humor faz rir ao contar a história de um homem que possui a habilidade de se transformar, como um camaleão, para se melhor adaptar ao ambiente.
A Rosa Púrpura Do Cairo:
Nessa obra Allen rompe a barreira da realidade ao trazer um personagem do cinema (Jeff Daniels) para o mundo real de uma simples garçonete (Mia Farrow). A temática do rompimento da diegese é bastante curiosa, e levanta perguntas sérias como qual é a importância de um filme na vida do seu espectador?
Hannah e Suas Irmãs:
Outra obra de tom sóbrio e sério que conta novamente à história de três irmãs envolto em sexo, traições e ambições. Aqui temos um show de interpretações principalmente de Michael Cane, Barabara Hurshey e Max Von Sydow (ator de Bergman).
A Outra:
As reflexões sobre o passado são o tema central deste filme. Rena Rowlands vive sobe a amargura de um amor passado ao qual ela deixou, e vive a se perguntar se valeu a pena. Novamente uma direção parada e de planos longos e vazios. Há uma cena muito curiosa que se passa em uma peça. A protagonista (amante do teatro) se vê em uma peça do seu passado e futuro.
Crimes e Pecados:
A construção desse roteiro é coisa de louco, se me perdoam a falar de tal maneira. Construído em dois pilares alicerces ( os personagens de Allen e Landau) o filme conta à história de um renomado médico que se vê ameaçado pela sua amante, e de um cineasta fracassado que se apaixona pela sua produtora. Duas histórias ligadas por um personagem curioso: um religioso que está perdendo a visão.
Poderosa Afrodite:
Maravilhoso filme que bebe na fonte das clássicas peças/coros/óperas gregas. Intercalando cenas de Nova York moderna com passagens no coliseu(?) e referências à Cassandra, Édipo Rei e a deus ex-machina. O filme conta a história de um casal que adota um bebê de uma prostituta. Allen mostra que tudo é possivel em um filme moderno, até uma das mais antiga artes.
Todos Dizem Eu Te Amo:
O primeiro sinal da crise. Allen tenta expandir mais suas referencias e limites mas esbarra no musical. Uma pena pois a idéia faz qualquer fã babar. Sem contar que esse talvez seja o melhor elenco que Allen já possui nas mãos.
Desconstruindo Harry:
Allen entra na sua crise. Não me entenda mal, um filme ruim de Allen, ainda é material de pesquisa profundo. A descontração se dá degradativamente enquanto o personagem título some. Um filme curioso de altos e baixos.
Celebridades:
As coisas parecem estar melhorando. Nesse estudo sobre o comportamento humano e vida das estrelas é bem interessante. Uma parodia sobre a falta de glamour no "glamourismo".
Poucas e Boas:
Um suspiro de alivio. Depois de um tempo sem criatividade Allen faz esse documentário sobre a vida de Emmet Ray, um guitarrista que vive a sombra de seu ídolo. O personagem, personificado nas cenas de reconstituição por Sean Penn, é perfeitamente construído. Cleptomaníaco e paranóico o seguimos durante sua vida intercalado com depoimento de conhecidos, músicos e especialistas. Curiosidade: Emmet Ray nunca existiu.
Trapaceiros:
Mas um filme fraco que conta à história de um grupo de ladrões que tentam assaltar um banco e criam uma padaria como distração para os policiais. Roubo da errado, mas ficam ricos com o sucesso dos doces da padaria. Uma curiosa vista no mundo esnobe da alta sociedade.
O Escorpião de Jade:
Uma tentativa de brincadeira com o cinema noir e policial. O filme falha em quase todos os aspectos. Algumas referências e situações salvam o filme da mediocridade.
Dirigindo No Escuro:
Uma piada contada muitas vezes perde a graça. O plot central do filme diretor fica cego e decide dirigir o filme cego para não perder a oportunidade e a grana é usado à exaustão. No entanto a primeira parte e o final são bem seguras e construídas.
Igual A Tudo Na Vida:
Allen chega ao fundo. A história é curiosa e Allen interpreta um personagem muito excitante, mas o filme se perde no romance chato e sem sal de Biggs e Ricci. A personagem Amanda é simplesmente irritante e cada cena com ela presente é uma tortura. Salve o personagem de Dobel o filme é dispensável da carreira do seu autor.
Melinda e Melinda:
Filme síntese da carreira de Allen. Um estudo sobre as incertezas da vida e como lidamos com ela. No filme vemos a mesma historia sendo contada por duas fontes completamente diferentes, um diretor de peças de comédia e um diretor de peças dramáticas. Ambas as histórias de Melinda tanto a trágica quanto à engraçada conta com personagens sólidos e humanos. Um novo recomeço para Allen que logo em seguida fé Match Point cujo link da minha critica segue.
http://fraserfilms.blogspot.com/2006_02_01_fraserfilms_archive.html
Aqui vai uma brincadeira minha com o time-line da carreira de Allen
PS: Nunca confie em um motorista de ônibus pelado.