Monday, November 21, 2005

Working like a clock...


Algumas vezes não reparamos na importância que uma obra audiovisual pode ter. Quando pensamos em “O Sexto Sentido” lembramos do final perturbador, e aqueles que sabem um pouco mais de cinema pensam como uma obra relativamente barata lucrou horrores. A importância do filme de M. Night ainda deve ser debatida muito no cenário artístico, pois a quantidade de roteiros que bebem em sua fonte é notável. A estética de filme que assusta mas não mostra, foi tão usada que aqueles que agora estão mostrando a violência estão voltando a fazer sucesso (vide Jogos Mortais I e II). Essa estética abordada em “Sexto Sentido” não era inovação e sim recriação, não foi à toa as comparações feitas entre Shyamalan e Hitchcock. O mestre do suspense nunca foi de mostrar a violência graficamente, e sim com sutileza e elegância.
Shyamalan em 1999 inovou no roteiro, a compreensão da linha narrativa do roteiro só se dava ao termino do filme. Nada fazia muito sentido, muitas perguntas poucas respostas. Uma idéia também já utilizada antes, mas sem o apelo comercial intrínseco no indiano. .E foi assim que esse diretor iniciante mudou Hollywood. O suspense nunca mais foi o mesmo, pro bem ou pro mal.
Hei que chegamos em Brian Andersone o seu “O Operário”. O filme conseguiu certo sucesso no público independente, principalmente pela atuação de Christian Bale, ator “indie” que perdeu cerca de trinta quilos pra fazer o papel de Trevor. A obra conta com um roteiro bem elaborado, que como “Sexto Sentido” só faz sentido no final. No entanto as semelhanças com o filme de 99 não param por ai, a trilha sonora de ambos são inspiradas nos sucessos de Herrmann e sua parceria com o Mestre do Suspense.
O curioso sobre o filme é que as perguntas são levantadas a cada minuto, sempre por truques de montagem, sem nunca ir ao obvio e levantar perguntas oralmente. A cena inicial mostra o magérrimo e machucado Trevor (Bale) enrolando um corpo e jogando-o no mar, mas ele é flagrado por um homem segurando uma lanterna amarela. Corta para Trevor lavando as mãos e perto dele a mesma lanterna amarela. E preso em sua geladeira um bilhete amarelo escrito “Quem é você?”. O que ele fez? Matou? Bateu? Quem botou aquele bilhete? A pergunta é levantada acreditando que o público é inteligente (o que é de se convir não acontece sempre) e vai deduzir suas respostas. A cena corta novamente para o protagonista em momento de prazer com uma mulher. As marcas em seu rosto somem e descobrimos que ele não dorme há um ano, e o público se indaga, o filme voltou alguns dias... ou será que ele pulou algumas semanas? E Porque ele não dorme?
O filme começa então a ser todo linear. As cenas são sempre adicionais, não diria que é uma montagem “Einsentaniana”, mas é uma montagem adicional, pois cada cena subseqüente vem para complementar a anterior. Ao longo do filme vemos um jogo da velha com seis espaços vazios que ao decorrer do tempo vão se preenchendo e as últimas duas letras __ __ __ __ E R aparecem. Isso confunde o espectador que sabe que há vários nomes que entram ali: TUCKER, MILLER, TREVOR, KILLER e etc.
Em determinada cena do filme Trevor tira uma foto de Marie, a garçonete boa praça, e seu filho, mas antes de apertar o botão ele olha para aquela cena com uma sensação de deja vu . Logo depois ele leva o garoto para a casa dos horrores. Enquanto Trevor sofre por ver imagens que lhe remetem a sua vida, Nicholas sofre algum tipo de ataque. Ao sair do brinquedo vemos uma imagem sem áudio. Isso intensifica uma cena que aparentemente você não compreende. Ao chegar na casa dela, Trevor vê na geladeira um desenho e a palavra MOTHER, que preencheria os espaços dos bilhetes anônimos. Ao correr pra casa confuso ele pega um álbum de fotos antigos e vê a mesma cena da foto que tirou de Marie e seu filho.
Há poucos fades no filme e muitos truques de edição. O atropelo de Nicholas é todo feito em edição, nunca colocando o menino em perigo. Já cena em que Trevor é atropelado apela para o efeito especial, o que é uma pena para um filme que mostrava que se podia fazer essa mesma de outros jeitos.
O filme no final não decepciona, é competente e sólido mas fraco no que parecia ser o seu melhor; o roteiro. O desenrolar da historia desde o inicio só podia apontar para um final, deixando só a curiosidade de saber o que exatamente aconteceu. A montagem se mostra uma das melhores coisas do filme. É muito curioso ver um filme que não tem medo de se apoiar na edição e fazer um filme honesto. Mas fica aqui registrado que o filme é mesmo de Christian Bale, não só porque perdeu esse peso absurdo, mas por dar vida a um personagem tão bizarro e cheio de tiques.

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